
"Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu...
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir
Faz tempo que a gente cultiva
A mais linda roseira que há
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a roseira prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
A roda da saia mulata
Não quer mais rodar não senhor
Não posso fazer serenata
A roda de samba acabou...
A gente toma a iniciativa
Viola na rua a cantar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a viola prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
O samba, a viola, a roseira
Que um dia a fogueira queimou
Foi tudo ilusão passageira
Que a brisa primeira levou...
No peito a saudade cativa
Faz força pro tempo parar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega a saudade prá lá...
Roda mundo, roda gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração..."
Em 1 ° de Abril de 1964 ocorreu um golpe no Brasil, no qual os militares tomaram o poder e controlaram o Estado durante 21 anos. O motivo do golpe, segundo eles, era que o país não tinha uma polítca própria, e que, com a ditadura, seguiria o rumo capitalista trazendo um desenvolvimento progressivo, com o objetivo de retomar um crescimento econômico interrompido nos anos de 1962 e 1963.
Nesse período, o clima no país era tenso. Quase tudo era proibido, a censura foi instaurada no teatro, na TV, no cinema, na música e até nas universidades. Essa repressão ainda se intensificou no governo Costa e Silva com a outorgada do AI-5, que ficou conhecida como política do “tudo é proibido”. Com o Ato Institucional, a população teve sua liberdade de expressão sufocada, portanto, impedidos de exercer uma postura crítica diante dos acontecimentos.
Nesse contexto, um dos grandes artistas da época e causador de grande polêmica foi Chico Buarque. Mesmo reprimido pela censura, expressou através de suas composições, conhecidas por serem muito metafóricas, o momento que a sociedade vivia.
A música Roda Viva, referida acima, faz parte da famosa peça de teatro de mesmo nome, que foi escrita em 1967 por Chico Buarque. Ela chocou parte do público com sua crítica e seu tom agressivo. Foi uma metáfora para driblar a censura. Ela faz apologia à volta da liberdade em plena Ditadura Militar. Roda Viva, segundo a letra, significa a vida cotidiana. Roda Viva representa uma mudança drástica na história e na vida, durante o período da ditadura militar, que é melhor ilustrada nos versos “Mas eis que chega a roda viva /E carrega o destino prá lá”. A música expressa a angústia de quem teve a vida levada por uma “roda”, um sentimento de que nada do que era bom naquele momento, na verdade, existiu. E também um desejo de mudança que era minimizado, ignorado, deixado para lá; esses sentimentos estão representados pela metáfora da fogueira. “O samba, a viola, a roseira/ Que um dia a fogueira queimou”.
O modo pelo qual artistas e compositores aplicaram aos seus trabalhos fez com que fossem perseguidos. E o exílio dos mesmos ocorreu para que as suas ideias não fossem disseminadas. O protesto de Chico foi especialmente criticado por suas composições e, mais tarde, essa crítica o levou a deixar de compor letras líricas e alienantes. Tal atitude fez com que ele passasse a criar canções mais diretas levando-o a enfrentar problemas como a proibição de algumas de suas músicas e uma vasta ficha de ordem política e social (Dops). Assim, o cantor decidiu se auto-exilar na Itália.
Depois de muito tempo retornou, assim participando de grandes festivais, fazendo sucesso com parcerias como do cantor Tom Jobim. Chico não deixou de escrever músicas relacionadas ao aspecto social do país, sendo um dos poucos que resgatam gêneros tradicionais, utilizando em suas canções protestos indiretos e crítico-político do Brasil, como fez com a canção Roda Viva.
Essa e muitas outras composições, que não só envolveram as áreas políticas e sociais como também culturais, representavam um grito pela liberdade, contra a violência imposta pelo regime totalitário no Brasil.
Ana Claudia Cabanas
Amanda Sousa
Iara Aurora
Mariana Campos
Mariana Reis
Thatiana Rós