Em 1º de abril de 1964, alegando proteger o País da subversão, os militares, por meio de um golpe, tomaram o poder no Brasil. Até 1985, o país sofreu duramente com a perseguição política, supressão dos direitos constitucionais, e a censura. E mesmo atormentados pela repressão, os artistas continuaram a reclamar do regime por meio de suas obras.
Nos primeiros anos do regime militar, a censura cultural não se estabeleceu imediatamente. É no governo Costa e Silva, com a publicação do Ato Institucional nº 5 (AI5) – que retirava todos os direitos dos cidadãos -, que os artistas passam a sofrer séria perseguição. Nada escapava dos fiscais da censura, que muitas vezes proibiam canções, filmes e peças teatrais, que não continham o menor sinal de contestação ao regime. No governo Medici (1969-1974) a perseguição alcançou patamares impressionantes, com prisões, torturas e exílios.
A resposta dos artistas ligados ao movimento musical ao endurecimento do regime e o aumento da repressão foi dada com canções que tentavam encontrar um meio de burlar a censura e alcançar a população. Para isso os músicos, engajados numa produção massiva, na chamada “Era dos festivais”, tinham como arma o uso de metáforas. “ (...) Há soldados armados, amados ou não / Quase todos perdidos de armas na mão / Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição / De morrer pela pátria e viver sem razão (...)”, cantava Geraldo Vandré em “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, canção que virou hino contra a ditadura militar. A canção “Apesar de Você”, de Chico Buarque, que parecia tratar de uma briga entre namorados era um recado ao general Medici: “ (...) Você vai pagar e é dobrado / Cada lágrima rolada / Nesse meu penar / Apesar de você / Amanhã há de ser / Outro dia / Você vai se dar mal (...) ”. A censura só percebeu o “recado” ao governo, depois que a música caiu na boca do povo.
Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque foram apenas três dos muitos músicos que não se calaram e tiveram que recorrer ao exílio por causa da perseguição política. Caetano e Gil foram presos em 1968 e se exilaram em Londres, na Inglaterra, em 1969. Chico fora chamado para interrogatório dias antes da prisão da dupla baiana, e proibido de deixar o País. Em 1969 recebeu autorização para participar de um festival em Cannes, na França, e seguiu para o auto-exílio na Itália. Mesmo exilados, os três, assim como outros artistas brasileiros, continuaram a usar do jogo de palavras nas canções para expressar o descontentamento, a revolta, e a vontade de um País diferente.
As ditaduras têm uma face repressora que ameaça desaparecer com todo pensamento contrário. Mas, sejam nas canções ou no olhar de um povo, a liberdade resplandece, à espera que a democracia se avive.
“No novo tempo, apesar dos castigos / Estamos em cena, estamos nas ruas, quebrando as algemas / Pra nos socorrer, pra nos socorrer, pra nos socorrer / No novo tempo, apesar dos perigos / A gente se encontra cantando na praça, fazendo pirraça / Pra sobreviver, pra sobreviver, pra sobreviver” (“Novo Tempo” - Ivan Lins e Victor Martins).
Ana Carolina Souza
Bethânia Morico
Guilherme Pallesi
Luiz Felipe Zamataro
Luiz Paulo Montes
Thais Carvalho
domingo, 25 de abril de 2010
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Fizemos a diferenciação em sala de governos totalitários e governos ditatoriais, em termos teóricos isso parece ficar claro, mas quando nos remontamos a atitudes de censura artísticas e culturais e à indução de programas educacionais e culturais elaborados pelos militares, percebe-se quão tênue é essa linha na prática. Isso vocês apresentam quando mencionam a medida AI5. Nesse sentido, houvesse sido interessante que explorassem mais o aspecto “quase totalitário” da ditadura militar no Brasil, no lugar de apresentar uma sinopse biográfica dos três cantores que já foi amplamente divulgada.
ResponderExcluirAdriana Martinez