O Ato Institucional nº 5 (AI-5),de 1968, em seu artigo 5º Inciso III, proibia “atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política”, ou seja, qualquer tipo de discussão ou manifestação contra o regime acarretava na suspensão dos direitos civis. O Ato ficou vigente até 1978, quando o general Ernesto Geisel ainda era presidente. Com a entrada de João Batista Figueiredo, o último general-presidente do Brasil, começou o processo de abertura política e redemocratização do país.Foi nesse contexto que algumas bandas de Brasília surgiram mostrando abertamente em suas letras, a indignação dos civis com o regime militar. Grupos como Plebe Rude e Aborto Elétrico (depois dividida em Capital Inicial e Legião Urbana) revolucionaram o Rock Nacional e incentivaram a população a se mobilizar pelo fim da censura imposta pelo AI-5.
“Cuidado, pessoal, lá vem vindo a veraneio
Toda pintada de preto, branco, cinza e vermelho
Com números do lado, dentro dois ou três tarados
Assassinos armados, uniformizados
Veraneio vascaína vem dobrando a esquina “.
O trecho da música Veraneio Vascaína, da banda Aborto Elétrico retrata o medo que a população tinha da polícia quando ela chegava com sua “Veraneio Vascaína”. Aliás, O termo “Vascaína” é uma alusão às cores da Veraneio, que eram as mesmas da camisa do Vasco da Gama, preto, branco e vermelho.
“Eu decido o seu futuro
Eu e os meus fuzis
Minhas normas determinam
Seus direitos civis”.
A banda Plebe Rude, na música “Códigos”, ironiza o poder ilimitado dos generais, que podiam “decidir o futuro” do povo através da força de suas armas e de suas normas. Caso a população desobedecesse tais ordens, seus direitos civis (o direito ao voto e ao habeas corpus, por exemplo) eram cassados.
Em “Códigos”, o autor se coloca como se fosse um general, que por ter plenos poderes, debocha:
“Estou rindo de você,
Estou rindo de você,
o seu direito é me obedecer
[...] O que você faz escondido diverte, me faz rir
Você pode me subestimar, mas vou te punir
Estou rindo de você
Estou rindo de você
Você não é ameaça para mim”.
Já em “Censura”, também da Plebe Rude, pode-se notar que o ponto de vista retratado não é o dos poderosos do governo, mas sim do povo revoltado com a atividade do “censor com bisturi”, que não deixa nada que possa prejudicar a imagem do Estado se tornar público
“Contra a nossa arte está a censura
Abaixo a cultura, viva a ditadura
Jardel com travesti, censor com bisturi
Corta toda música que você não vai ouvir.”
A censura não obedecia a critério nenhum, as músicas podiam ser proibidas por motivos políticos ou simplesmente pelos censores não entenderem o que o autor queria dizer.
“Nada para ouvir, nada para ler
Nada para mim, nada pra você
Nada no cinema, nada na TV
Nada para mim, nada pra você”.
Porém, o argumento dos generais, segundo a música “Proteção”, era de que tanto a censura a todo tipo de arte quanto a truculência da polícia tinha por objetivo proteger a população, calando os opositores do governo para “manter a boa imagem do Estado”.
“A PM na rua, a guarda nacional
Nosso medo suas armas, a coisa não tá mal
A Instituição esta aí para a nossa proteção.
[...]Oposição reprimida, radicais calados
Toda a angustia do povo é silênciada
Tudo pra manter a boa imagem do Estado!”.
E como marca característica das músicas de protesto, o autor questiona a validade de tal postura da administração pública, embora continue afirmando que “tudo isso é para a sua segurança”:
“Até quando o Brasil vai poder suportar?
Código penal não deixa o povo rebelar
Autarquia baseados em armas não dá
E tudo isso é para a sua segurança”
Brunno Minelli
Constantino Nicholas
Marília Torello
Marina Sakovic
Rafael Abreu
Renan Palhares


