Por Ananda Almeida e Débora Emílio
“Que país não gostaria de ter uma empresa assim?”; “Se o nosso país tem muitos desafios pela frente, não vai faltar energia para vencer cada um deles”; “No pé, a gente é bom, mas na África, a mão também vai fazer diferença”, “Guaraná Antártica – Original do Brasil”. A príncipio, pode parecer apenas marketing dos comerciais, mas a publicidade pode estar vendendo outras coisas além de seus produtos.
"A gente já passou por muita coisa. Vinte anos atrás não dava para imaginar que o Brasil ia superar a inflação. (...) Dez anos atrás, quem podia imaginar a gente emprestando dinheiro para o FMI, ....” O comercial da Chevrolet aparenta manifestar a ideia de que, assim como o carro que está sendo divulgado, com toda sua tecnologia e inovações, o Brasil também é perfeito. Ao falar sobre o empréstimo de dinheiro ao FMI, que antes era a organização que concedia fundos ao Brasil, incita no espectador a ideia de que o Brasil está se tornando poderoso, passando à frente dos países desenvolvidos (o carro novo ultrapassando os antigos). O brasileiro, então, pode começar a desenvolver o sentimento nacionalista, que é a ideologia de uma única identidade para todos os indivíduos de uma nação.
A aversão de brasileiros quanto aos argentinos não é rara de se encontrar. Aqueles, no entanto, sequer sabem o motivo do sentimento de rivalidade com o povo argentino. O comercial das Havaianas com o ator Lázaro Ramos parece ressaltar a superioridade que o Brasil acredita ter em relação à Argentina. Segundo o comercial, entre brasileiros pode-se enxergar os defeitos que aqui existem, mas, diante do turista argentino, precisaram mostrar as qualidades do país, incitando que é um país perfeito. Além disso, o próprio slogan dos comerciais das sandálias Havaianas – “Recuse imitações” – pode dar a entender que o brasileiro tem que comprar chinelos fabricados no Brasil, rejeitando produtos de outros países.
Segundo matéria do jornalista Marcio Aith, da Folha de São Paulo, uma “’publicidade-exaltação’ está invadindo os comerciais”. Além de estarem incentivando o sentimento nacionalista, as propagandas também estão veiculando ideais pró-governo. “O problema é distinguir marketing da simples adulação - em outras palavras, se o produto anunciado é o governo”. No entanto, as empresas que transmitem os seus comerciais com um quê de nacionalismo argumentam que é a satisfação dos clientes que contamina as propagandas. [Leia a reportagem de Marcio Aith na íntegra]
A imagem dos brasileiros mostrada por muitos comerciais, principalmente, nos de cerveja, é a de um povo trabalhador, que passa por muitas dificuldades, mas, mesmo assim, continua feliz e consegue atingir os seus objetivos, pois é um povo guerreiro. Mas, até onde devem ir os limites do “orgulho em ser brasileiro”?
segunda-feira, 22 de março de 2010
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Muito bem elaborada a matéria, o jeito como abordaram o sentimento nacionalista apresenta como há todo um mecanismo sutil para criar artifícios simbólicos e dessa forma, reunir sob um território e sob as mesmas leis, múltiplas culturas e etnias. Além disso, o aspecto político mostra como o nacionalismo pode ser de grande utilidade para manipulação, e o lado econômico para o protecionismo comercial. O país não é exaltado pura e exclusivamente pelo seu desempenho, e sim, em detrimento de outro. O final do artigo pareceu-me bem sugestivo, até que ponto essa felicidade do povo brasileiro não está apoiada na ocultação da realidade e na passividade política enquanto cidadão numa sociedade (supostamente) democrática?
ResponderExcluirAdriana Martinez